domingo, 30 de dezembro de 2012


TAMARINEIRA X AMENDOEIRA

Ninguém discute a importância do Cacique de Ramos para o samba. Berço de grandes bambas são
oriundos do Cacique de Ramos os cantores e compositores Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Sombrinha,
Jorge Aragão, Cleber Augusto, Bandeira Brasil, Almir Guineto e ainda eram figuras constantes na quadra,
o Luiz Carlos da Vila, Beth Carvalho, Leci Brandão e diversos expoentes do samba. Citamos ainda o
Neoci e o Mussum e poderíamos citar muitos outros. O grupo Fundo de Quintal é a própria essência do
Cacique. Mas o tempo passou e o Cacique tornou-se a “grife” do samba e acredito que tenha perdido
o rumo inicial. Ao visitá-lo há poucos domingos atrás, levei um baita susto. Som de péssima qualidade
(não se ouvia nada do que era cantado), desconforto total (a quantidade de mesas não era suficiente),
superlotação na quadra e pouquíssimas pessoas interessadas no samba; pareceu-me nítido, quando via
muitas mulheres em roupas sumaríssimas e homens sozinhos, que o objetivo ali não era curtir o samba
do Cacique, mas claro, posso estar enganado. Ah, esqueci-me de mencionar a truculência de alguns
seguranças.

Sendo um apaixonado pelo samba, saí de lá triste e decepcionado. Entendo que o Bira Presidente (a
quem rendo sempre meus respeitos), o Ubirani e o Sereno tenham outros afazeres e não possam ver no
que transformaram o Cacique de Ramos, mas por favor, não deixem a tamarineira ser consumida pelas
saúvas.

E por falar em árvores frondosas, preciso falar da amendoeira, ou melhor, do Samba da Amendoeira.
Recentemente, sem ter sido programado, visitei o Samba da Amendoeira. A roda de samba funciona
próximo ao Largo de São Jorge, na Engenhoca, em Niterói. O lugar é simples, mas aconchegante. A
recepção é calorosa. Os irmãos Nathan e Pablo recebem o visitante de forma carinhosa. Mas vamos
falar do samba. Na noite em que visitei o convidado era o Rixxah (neste caso não se precisa falar
mais nada, pois este artista dispensa comentários pela sua qualidade). O grupo que embalava a roda
impressionou-me pela qualidade e principalmente pelo repertório. Batucavam com vibração e alegria
transmitindo a todos o verdadeiro sentido do samba. Tocaram Casquinha da Portela, Monarco,
Joãozinho da Pecadora, Candeia, Velha, Gracia do Salgueiro e outros genuínos sambistas. Sem querer
desmerecer, mas nada de Sorriso Maroto, Pique Novo e outros grupos que aleijaram o samba. Era
samba de verdade, de raiz e, sobretudo executado com maestria e reverência. Foi impossível ficar
parado, e mesmo desajeitado “fiz no pé”. Gostaria de chamar a atenção especialmente para o músico
que tocava cuíca. Caramba, demais!

A proposta dos irmãos Nathan e Pablo, assessorado pelo pai deles, o Cezar, é tornar aquele espaço
numa atalaia do samba de raiz, como outrora fora o Cacique de Ramos. Semear naquele espaço o
samba autêntico para que ele possa ser ouvido e curtido pelas novas gerações, creio que seja o sonho
dos meninos.

Quem ainda não conhece, eu posso recomendar de olhos fechados. Visite o Samba da Amendoeira e
tenha uma noite de alegria e samba, segurança e simpatia.

A continuar assim, a amendoeira não será consumida pelas saúvas.

Deixo aqui meu abraço aos irmãos Pablo e Nathan, extensivo ao “mais velho”

Vida Longa ao Samba da Amendoeira.

domingo, 18 de novembro de 2012


                                                Candeia

     Candeia segundo os dicionários é uma pequena lamparina, que como toda lamparina, tem como objetivo iluminar. Na Bíblia Sagrada inúmeras citações mostram a candeia como elemento mostrador e iluminador dos caminhos. Para nós, “apaixonados pelo samba”, ANTONIO CANDEIA FILHO, ou simplesmente CANDEIA, é a luz que ilumina a trilha por onde devemos seguir. Apaixonados pelo samba, não ouvimos a arte do grande mestre, mas a degustamos; sim, porque saborosamente as notas divinas acariciam todos os nossos sentidos e como mencionamos o sagrado, podemos dizer que o samba de Candeia é para se ouvir de joelhos.
     Antonio Candeia Filho, e como não podia ser diferente, veio ao mundo em Oswaldo Cruz, no dia 17 de agosto de 1935. Neste mítico bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, ele cresceu entre gorjeios de passarinhos e rodas de samba. Cedo já dedilhava violão e cavaquinho e também frequentava os centros de macumba da região. Ali aprendeu muito sobre a sua raça, a raça negra. Também era capoeirista, e dos bons.  No coração do menino enraizava-se o amor aos seus sofridos irmãos que mesmo libertos pela lei, continuavam escravos de uma realidade miserável e desesperançada. E este amor, diante de tão dura realidade, se transformou em versos de rara beleza.
“ O crioulo no morro tá muito invocado
O crioulo no morro está no miserê
Desce o morro e não encontra trabalho
E nem traz o feijão prá comer.”
    No histórico ano de 1953, a Portela, sua escola de coração, conquista um feito inédito. Não perdeu um ponto sequer, durante as apurações, perfazendo incríveis 400 pontos. E adivinhem de quem era o samba enredo: Claro, Candeia e Alcir Prego. O samba, Seis Datas Magnas, levantou a plateia.
    No ano de 1960, Candeia daria o primeiro passo para se tornar outro homem. Neste ano ele entrou para a polícia e com fama de truculento e durão granjeou vários inimigos na corporação. Diz-se que era temido pela bandidagem da época. Conta a lenda, entretanto, que certa feita ele esbofeteou uma prostituta na zona do mangue, e que esta rogou-lhe uma praga. Na noite seguinte, esta praga, se de fato aconteceu, acabou por se concretizar. Após se envolver numa briga de trânsito, Candeia descarregou o seu revólver no pneu de um caminhão que transportava peixe, sendo posteriormente alvejado, cinco vezes pelo motorista do caminhão. Um dos tiros atingiu-lhe a coluna vertebral provocando paralisia dos membros inferiores. Por absoluta ironia do destino esta tragédia ocorreu na Avenida Marques de Sapucaí, onde atualmente é o sambódromo e bem próximo de onde ele esbofeteara a bruxa.
     Em profunda depressão, após período de dolorosa convalescença, Candeia se recolheu. Triste a amargo não recebia sequer os amigos mais próximos. Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila e outros ícones do samba visitaram o mestre diversas vezes no intuito de trazê-lo de volta à vida e depois de muito tentarem, conseguiram. Aquele tiro que paralisou seus movimentos trouxe à tona um homem e um compositor de rara sensibilidade. Candeia se transformou e aquela cadeira já não era mais um estorvo, mas um trono e dali, do seu trono de rei, ele reinava sobre o mundo do samba embevecendo todos nós, súditos, com suas maravilhosas composições. Engajado na defesa da raça negra fundou a Escola de Samba Quilombo em 1975.


    


É com imenso prazer que damos inicio hoje a este blog dedicado aos apaixonados pelo samba.