Candeia
Candeia segundo os dicionários é uma
pequena lamparina, que como toda lamparina, tem como objetivo iluminar. Na
Bíblia Sagrada inúmeras citações mostram a candeia como elemento mostrador e
iluminador dos caminhos. Para nós, “apaixonados pelo samba”, ANTONIO CANDEIA
FILHO, ou simplesmente CANDEIA, é a luz que ilumina a trilha por onde devemos
seguir. Apaixonados pelo samba, não ouvimos a arte do grande mestre, mas a
degustamos; sim, porque saborosamente as notas divinas acariciam todos os
nossos sentidos e como mencionamos o sagrado, podemos dizer que o samba de
Candeia é para se ouvir de joelhos.
Antonio Candeia Filho, e como não podia
ser diferente, veio ao mundo em Oswaldo Cruz, no dia 17 de agosto de 1935.
Neste mítico bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, ele cresceu entre gorjeios
de passarinhos e rodas de samba. Cedo já dedilhava violão e cavaquinho e também
frequentava os centros de macumba da região. Ali aprendeu muito sobre a sua
raça, a raça negra. Também era capoeirista, e dos bons. No coração do menino enraizava-se o amor aos
seus sofridos irmãos que mesmo libertos pela lei, continuavam escravos de uma
realidade miserável e desesperançada. E este amor, diante de tão dura
realidade, se transformou em versos de rara beleza.
“ O crioulo no morro tá muito
invocado
O crioulo no morro está no miserê
Desce o morro e não encontra
trabalho
E nem traz o feijão prá comer.”
No histórico ano de 1953, a Portela, sua
escola de coração, conquista um feito inédito. Não perdeu um ponto sequer,
durante as apurações, perfazendo incríveis 400 pontos. E adivinhem de quem era
o samba enredo: Claro, Candeia e Alcir Prego. O samba, Seis Datas Magnas,
levantou a plateia.
No ano de 1960, Candeia daria o primeiro
passo para se tornar outro homem. Neste ano ele entrou para a polícia e com
fama de truculento e durão granjeou vários inimigos na corporação. Diz-se que
era temido pela bandidagem da época. Conta a lenda, entretanto, que certa feita
ele esbofeteou uma prostituta na zona do mangue, e que esta rogou-lhe uma
praga. Na noite seguinte, esta praga, se de fato aconteceu, acabou por se
concretizar. Após se envolver numa briga de trânsito, Candeia descarregou o seu
revólver no pneu de um caminhão que transportava peixe, sendo posteriormente
alvejado, cinco vezes pelo motorista do caminhão. Um dos tiros atingiu-lhe a
coluna vertebral provocando paralisia dos membros inferiores. Por absoluta
ironia do destino esta tragédia ocorreu na Avenida Marques de Sapucaí, onde
atualmente é o sambódromo e bem próximo de onde ele esbofeteara a bruxa.
Em profunda depressão, após período de
dolorosa convalescença, Candeia se recolheu. Triste a amargo não recebia sequer
os amigos mais próximos. Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila e outros
ícones do samba visitaram o mestre diversas vezes no intuito de trazê-lo de
volta à vida e depois de muito tentarem, conseguiram. Aquele tiro que paralisou
seus movimentos trouxe à tona um homem e um compositor de rara sensibilidade.
Candeia se transformou e aquela cadeira já não era mais um estorvo, mas um
trono e dali, do seu trono de rei, ele reinava sobre o mundo do samba
embevecendo todos nós, súditos, com suas maravilhosas composições. Engajado na
defesa da raça negra fundou a Escola de Samba Quilombo em 1975.