domingo, 18 de novembro de 2012


                                                Candeia

     Candeia segundo os dicionários é uma pequena lamparina, que como toda lamparina, tem como objetivo iluminar. Na Bíblia Sagrada inúmeras citações mostram a candeia como elemento mostrador e iluminador dos caminhos. Para nós, “apaixonados pelo samba”, ANTONIO CANDEIA FILHO, ou simplesmente CANDEIA, é a luz que ilumina a trilha por onde devemos seguir. Apaixonados pelo samba, não ouvimos a arte do grande mestre, mas a degustamos; sim, porque saborosamente as notas divinas acariciam todos os nossos sentidos e como mencionamos o sagrado, podemos dizer que o samba de Candeia é para se ouvir de joelhos.
     Antonio Candeia Filho, e como não podia ser diferente, veio ao mundo em Oswaldo Cruz, no dia 17 de agosto de 1935. Neste mítico bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, ele cresceu entre gorjeios de passarinhos e rodas de samba. Cedo já dedilhava violão e cavaquinho e também frequentava os centros de macumba da região. Ali aprendeu muito sobre a sua raça, a raça negra. Também era capoeirista, e dos bons.  No coração do menino enraizava-se o amor aos seus sofridos irmãos que mesmo libertos pela lei, continuavam escravos de uma realidade miserável e desesperançada. E este amor, diante de tão dura realidade, se transformou em versos de rara beleza.
“ O crioulo no morro tá muito invocado
O crioulo no morro está no miserê
Desce o morro e não encontra trabalho
E nem traz o feijão prá comer.”
    No histórico ano de 1953, a Portela, sua escola de coração, conquista um feito inédito. Não perdeu um ponto sequer, durante as apurações, perfazendo incríveis 400 pontos. E adivinhem de quem era o samba enredo: Claro, Candeia e Alcir Prego. O samba, Seis Datas Magnas, levantou a plateia.
    No ano de 1960, Candeia daria o primeiro passo para se tornar outro homem. Neste ano ele entrou para a polícia e com fama de truculento e durão granjeou vários inimigos na corporação. Diz-se que era temido pela bandidagem da época. Conta a lenda, entretanto, que certa feita ele esbofeteou uma prostituta na zona do mangue, e que esta rogou-lhe uma praga. Na noite seguinte, esta praga, se de fato aconteceu, acabou por se concretizar. Após se envolver numa briga de trânsito, Candeia descarregou o seu revólver no pneu de um caminhão que transportava peixe, sendo posteriormente alvejado, cinco vezes pelo motorista do caminhão. Um dos tiros atingiu-lhe a coluna vertebral provocando paralisia dos membros inferiores. Por absoluta ironia do destino esta tragédia ocorreu na Avenida Marques de Sapucaí, onde atualmente é o sambódromo e bem próximo de onde ele esbofeteara a bruxa.
     Em profunda depressão, após período de dolorosa convalescença, Candeia se recolheu. Triste a amargo não recebia sequer os amigos mais próximos. Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila e outros ícones do samba visitaram o mestre diversas vezes no intuito de trazê-lo de volta à vida e depois de muito tentarem, conseguiram. Aquele tiro que paralisou seus movimentos trouxe à tona um homem e um compositor de rara sensibilidade. Candeia se transformou e aquela cadeira já não era mais um estorvo, mas um trono e dali, do seu trono de rei, ele reinava sobre o mundo do samba embevecendo todos nós, súditos, com suas maravilhosas composições. Engajado na defesa da raça negra fundou a Escola de Samba Quilombo em 1975.


    


É com imenso prazer que damos inicio hoje a este blog dedicado aos apaixonados pelo samba.